"If I ever allow genuine compassion to be overtaken by personal ambition, I will have sold my soul" - James Nachtwey

26 janeiro 2006

O Poder da Escolha

Um dos casos polémicos da noite eleitoral foi o "corte" da palavra ao candidato Manuel Alegre.
Esse caso foi também alvo de discussão no programa de ontem do Clube de Jornalistas. Penso que é de salientar a posição do jornalista João Adelino Faria, que, quando questionado sobre a decisão tomada (neste caso pela SIC), admitiu que foi um erro. Um erro de que só se deram conta depois de já o terem cometido, pois, como explicou, a decisão teve que ser tomada em escassos segundos, e como tal não houve tempo para pensar.
Esse erro foi cometido por todos os canais, mas foi positivo ver um jornalista de um deles a admitir o erro. Sim, porque os jornalistas também têm direito de errar. Mas quando o fazem raramente o admitem...
Independentemente de outras possíveis culpas de responsáveis políticos, penso que as televisões não se podem demitir de uma parte de responsabilidade no que se passou. Era uma decisão difícil, que tinha de ser tomada em muito pouco tempo, compreende-se, mas é discutível se terá sido a mais correcta. Era, no fundo, uma questão de decidir o que tinha mais importância como notícia naquele momento: o discurso do candidato que tinha ficado colocado em segundo lugar, e como uma votação considerável, ou o do primeiro-ministro? As televisões escolheram o primeiro-ministro...
João Adelino Faria referiu ainda que a SIC teve o cuidado de corrigir imediatamente o erro, pondo de seguida no ar a gravação do discurso completo de Manuel Alegre. Não sei se as outras televisões fizeram o mesmo. Se não o fizeram, penso que seria bom que o tivessem feito. Sempre seria um mal menor...

6 comentários:

Aisling disse...

Sim é grave... Também não sei se as outras televisões puseram no ar o discurso completo de Manuel Alegre, mas sem dúvida que o deveriam ter feito. De qualquer maneira, acho mais grave ainda a justificação dada pelo gabinete do primeiro-ministro... Dizer que não sabiam que o candidato Manuel Alegre estava a fazer o seu discurso naquele momento é de uma hipocrisia sem tamanho... Sim porque no caso de eleições, nem sequer fazem a monitorização de todas as estações de televisão... Óbvio que não! Ridículo mesmo...

CN disse...

Pois eu digo que a decisão de cortar o discurso de Alegre era a única possível. O Alegre não era o vencedor das eleições, apenas ficou em 2º e, nestas coisas, the winner takes it all. Portanto, o que ele estivesse a dizer, podia muito bem ser ouvido em diferido. O Primeiro-Ministro foi, por outro lado, o grande perdedor e, assim, qualquer critério jornalístico mandaria colocar no ar o que ele estivesse a dizer.

para mim disse...

O interesse jornalístico era óbvio em relação a Sócrates, já que seria ele que iria ter começar uma coabitação com o próximo inqulino de Belém, anunciado como o vencedor da noite. Contudo, Sócrates disse mais tarde que não sabia que Alegre estava a falar, e não teria discursado ao mesmo tempo. Diz a versão oficial que Sócrates, agarrado às suas muletas, saiu do gabinete devagarinho e, quando chegou à sala de Imprensa não havia qualquer televisão a transmitir o discurso de Alegre. a minha dúvida é em relação aos jornalistas aí presentes que, em ligação com as suas redacções ou através da rádio, tinham a obrigação de estar devidamente informados sobre o que estava a suceder naquele preciso momento na sede de candidatura de Manuel Alegre... Se isso aconteceu, então porque não interpelaram Sócrates no momento em que este avançou para o púlpito e limpava a garganta antes de começar a falar?! E os seus assessores também nada lhe disseram?
Será que entre os jornalista aí presentes algum deles se lembrou de colocar a mão no ar e perguntar alto: "Senhor primeiro-ministro desculpe, não sei que sabe que o candidato Manuel Alegre está também a falar neste momento ou, se por acaso, sabe e mesmo assim, vai falar ao mesmo tempo?!", seria algo tão natural isto suceder. Se não sucedeu, então o que é feito do jornalismo? São apenas pés de microfone?!...

Joana Capitão disse...

Acho interessante a questão levantada pelo último comentário. Será possível que nenhum dos jornalistas ali presentes soubesse que Manuel Alegre estava a falar? Pelo contrário, penso que era natural que o soubessem... Então porque não disseram nada? É estranho, realmente.

para mim disse...

Não é estranho não. São a Imprensa seguidista que temos, cheios de medo de serem despedidos por um patrão amigo do senhor político...

Joana Capitão disse...

Pois, provavelmente é essa a explicação. É um verdadeiro desconsolo verificar que os jornalistas foram naquele caso (e são noutros), meros "fantoches" de microfone na mão...