"If I ever allow genuine compassion to be overtaken by personal ambition, I will have sold my soul" - James Nachtwey

17 julho 2005

Diferentes Culturas Noticiosas

Ao observar a cobertura noticiosa dos recentes atentados terroristas em Londres, não pude deixar de reparar como a forma portuguesa de fazer jornalismo difere tanto da britânica.
E difere, em primeiro lugar, no respeito pelo público. Repararam que poucas imagens chocantes foram difundidas? É certo que a polícia também contribuiu para isso, minimizando ao máximo essas imagens, mas mesmo assim... O que se verificou foi um cuidado extremo, um respeito pelo telespectador e pelos públicos mais sensíveis. Aliás, em Inglaterra é frequente o público manifestar o seu desagrado sobre a emissão de imagens mais chocantes, enviando cartas para as televisões. Ao mesmo tempo, houve cuidado também na divulgação das informações, e nomeadamente do número de vítimas. Nada era avançado sem a devida confirmação.
E em Portugal?... Os jornalistas parecem ter ficado obviamente frustrados pela falta de imagens dramáticas, facto que aliás referiam amiúde nas reportagens feitas no local. É claro que não o diziam directamente, mas lia-se nas entrelinhas. Tudo o que podiam era filmar o local onde estava coberto por um plástico azul o autocarro, e as entradas das estações, também elas cobertas. Não lhes era permitido ver mais, e portanto desatavam a fazer conjecturas, e a descrever, de forma adjectivada e dramática, o estado dos corpos dentro do metro, criado uma imagem de horror, à falta de uma verdadeira imagem. Sim, porque imagens de drama e horror, poucas houveram, ao contrário dos atentados em Nova Iorque e em Madrid. E, por muito que os jornalistas tentassem transmitir que estava a ser difícil o regresso à normalidade, o que as imagens mostravam (outras vez essas traiçoeiras imagens!) era precisamente o contrário: as pessoas seguiam com a sua vida.
Concluindo: este foi apenas um exemplo de como há várias formas de fazer jornalismo, e ao mesmo tempo serviu para provar como o jornalismo televisivo ainda está tão dependente das imagens, e como tem dificuldade em abordar uma tragédia sem imagens e depoimentos dramáticos. A meu ver, essa ausência de imagens poderia até ser um desafio ao jornalista para fazer outras abordagens ao tema. Mas, como se verificou, o jornalismo televisivo português, ainda sobrevive muito do drama. E é pena...

3 comentários:

bruno ribeiro de almeida disse...

São os vícios do pragmatismo da sociedade, acho eu... A partir do momento que as notícias são um negócio, dependente das audiências, entra logo em jogo a faceta de espectáculo e de dramatização.

Fico contente por teres continuado o teu blog :) *

Joana Capitão disse...

É verdade, as notícias são, cada vez mais, um negócio, e essa é uma faceta inegável nos dias que correm. Por isso mesmo, acho que é de louvar sempre que num trabalho jornalístico o respeito pelo público se sobrepõe à lógica do lucro. Porque afinal, é ao serviço do público, em primeiro lugar, que o jornalista deve estar!
Depois para além disso, há, como referi, diferentes culturas noticiosas. Há um jornalismo maduro e cuidadoso, e depois há o nosso... que ainda deixa muito a desejar em determinadas ocasiões...

Pois é, seguindo a opinião de alguns leitores, decidi continuar. ;) *s

Anónimo disse...

E fizeste tu mt bem!

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